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The Swan - Aventuras Juvenis em Londres -Preconceitos, Corrupção, África e Brasil




Há poucos meses fiquei chocado ao descobrir que o cacau da América Latina é o mais contaminado com metais pesados do planeta. Quem diria, pois achava que o cacau africano é que era…


Por preconceito e falta de conhecimento, nós, originários da América Latina, sempre achamos que a África é que é pobre e corrupta. Nós supostamente somos "quase" europeus, desprezando o povo do outro lado do Atlântico como mais atrasados do que nós.


Essa notícia me lembrou de duas histórias que são interligadas, mesmo com décadas de distância.


Recentemente, em uma conversa com um português que trabalha muito com a África, quis reforçar um ponto: como brasileiro, eu acreditava que seria mais fácil abordar os africanos para triangular negócios entre Brasil, Portugal e África, já que não temos passado colonial e somos um país com população negra significativa.


Instintivamente quis enriquecer meu argumento com uma história que se passou comigo no pub The Swan, em Stockwell - um bairro pobre do sul de Londres, no outono de 1986.


Eu trabalhei lá por quase 4 meses, pois não queria voltar a ser garçom já que estava de barba e brincos e não queria mudar meu novo visual.


O pub era segregado entre o "Pub Irlandês", local grande, um pub tradicional onde havia música ao vivo e um monte de gente com cara suspeita (vários de camiseta de suporte ao IRA) e um outro bar menor, separado por um corredor interno onde estavam os banheiros, que chamávamos de "Public Bar".


Se o Irish Pub era tudo o que o estereótipo de um pub irlandês dos anos 80 demandaria, inclusive com música irlandesa típica (e chatésima) ao vivo todos os dias (a exceção era quinta, quando havia rock de altíssima qualidade), o Public Bar era o lado "étnico" do estabelecimento: 95% dos frequentadores eram africanos e caribenhos, quase todos negros.


O Public Bar era bem menor, não tinha serviço de refeição, havia máquinas de vídeo poker, mesa de snooker, duas TVs ligadas permanentemente e várias mesas onde os frequentadores mais velhos jogavam dominó. Era um local caótico e animado ao mesmo tempo, com a balbúrdia do barulho simultâneo de todas as máquinas, TVs e os velhos batendo os dominós nas mesas, gritando e rindo, felizes de ganhar o jogo.


Mas na verdade o clima era pesado dos dois lados do pub, por razões diferentes.


Se do lado irlandês o povo era super anti-inglês, havia sempre uma briga prestes a eclodir, os clientes iam ficando cada vez mais agressivos com o aumento do consumo etílico e se podia sentir a presença do IRA, do outro lado havia outros tipos de criminosos: traficantes, pequenos assaltantes, pessoal com vários seguros desempregos, etc. Entre eles tinha um fulano, branco, viciando em heroína, que tinha conseguido tirar 9 registros na Segurança Social, recebendo 9 seguros desempregos e gastando tudo nas máquinas de vídeo poker. Ah, bons tempos analógicos…


Na parede do fundo havia uma placa com uma mensagem clara: tráfico de drogas não seria tolerado dentro do Public Bar. Mas era óbvio quando dois clientes saiam para fazer uma "transação" do lado de fora.


Nos meus meses lá teve até briga de faca entre uma moça, que metia medo em todo mundo (ela era bem maior do que eu e quase me bateu num dia que fiz um comentário que era para ser uma simples brincadeira), e o tal heroinômano com 9 seguros-desemprego. Na verdade foi mais uma fuga desenfreada dele, que saiu correndo pelo corredor de interligação com a moça de faca em punho e quase o alcançando, atravessou o Pub irlandês em desespero total e nunca mais voltou a ser visto.


Tudo por causa de uma cotovelada involuntária durante o jogo de snooker!


Uma outra vez, o John vai me chamar no Irish Pub e pede para eu descer com ele até o porão para pegar os dois cachorros Rottweiler. Ato contínuo, ele me passa um taco de beisebol, pedindo para segurar de forma ameaçadora e não falar nada. Subimos para o Public Bar e ele, comigo de um lado (com o taco de beisebol) e os cachorros do outro, gritou para um rapaz jovem, não muito mais velho do que eu na época, de forma extremamente agressiva e ameaçadora: OUT! NOW!


O rapaz ficou pálido quando viu a cena, com expressão de desespero abandonou a máquina de video poker no meio do jogo e saiu correndo do bar. Depois que consegui falar - pois fiquei tão surpreso com a cena como o rapaz que fugiu, o John me explicou que ele havia sido banido do Pub por ter traficado drogas do lado de dentro! Ah bom, então estava explicado...


Eu só fui ter plena certeza da "idoneidade" dos frequentadores no dia em que a delegacia de polícia local alugou a discoteca, que ficava por cima do Pub, para um evento: fui chamado para ajudar no desembarque das bebidas e decorações que os policiais iriam usar na sua festa e, ao terminar, eles resolveram atravessar o Public Bar para usar os banheiros que ficavam no corredor de interligação. Eram uns 6-7 policiais, entre fardados e a paisana. Entre nossa passagem no meio das mesas de dominó e a minha volta, 10 minutos depois, para meu posto de trabalho, o Public Bar ficou completamente deserto, sem literalmente um único cliente!


Nesse ambiente pesado, o John, dono do Pub, colocava preferencialmente os homens para trabalhar do lado "africano", pois ele achava que impúnhamos mais respeito do que as meninas.


E lá eu ia quase todos os dias.


Eu morava como 'squatter' (história para outro dia!) num bairro mais ao sul, chamado Tulse Hill, na época famoso por ser polo de irlandeses 'desempregados', todos morando em habitações sociais e recebendo seguro desemprego, mas que trabalhavam informalmente na construção civil.


E o povo do Public Bar sabia que eu morava lá.


Para piorar, eu estava todo mais aloirado depois de passar o verão mochilando debaixo de sol pela Europa (meu cabelo e pelos dos braços ficavam claros com o sol) e já falava inglês quase sem sotaque.


Meu look novo, já em janeiro de 87, mais branquelo ainda após meses sem sol!
Meu look novo, já em janeiro de 87, mais branquelo ainda após meses sem sol!

Um detalhe importante: os irlandeses da região onde eu morava eram famosamente racistas e eu sempre sentia uma certa animosidade no ar, muitas vezes me sentindo constrangido no trajeto de ônibus entre o Pub, em Stockwell, e minha casa em Tulse Hill (no famoso ônibus 2B!), pois a maioria dos passageiros eram negros e eu lá, um branquelo semi-aloirado de olhos azuis com cara de bebê que eu tentava esconder com uma barba ainda rala, tentando se firmar.


E não era só no ônibus que eu sentia uma certa agressividade, no Public Bar eu era explicitamente mal tratado, desprezado por quase todos os clientes.


Até que um dia um dos poucos que eram mais simpáticos comigo, o Maurice das Ilhas Maurício (ele sempre fazia a piada infame), me pediu um drink em francês. Eu fui e fiz, respondendo em inglês, para o espanto dele.


Muito surpreso por eu ter entendido francês, me perguntou como eu havia compreendido o que ele tinha dito.


Quando disse que falava o básico do básico, mas entendia muitas coisas pelo francês ser próximo da minha língua, o português, ele ficou ainda mais espantado: “Como assim, você fala português?!? Você não é irlandês??!?”


“Não, sou brasileiro.”


Sem pensar, ele pegou numa cadeira de uma das mesas de dominó, subiu, bateu palmas e anunciou, quase gritando, apontando diretamente para mim:


“Pessoal, ele não é irlandês, ele é brasileiro!!”


Imediatamente fui literalmente cercado - no bom sentido - por todos. Vieram até o balcão falar comigo numa super animação: Pelé, Garrincha, Brasil pais do futuro, população negra, escalação da Seleção de 1982 (e de 1986!) e por aí foi.


A partir desse dia o tratamento mudou e virei “um deles”, mesmo ainda sendo um branquelo mais parecido com os irlandeses.


E resolvi contar essa história, de forma resumida, para o português, dizendo que, como brasileiro, seria muito mais fácil fazer negócios na África.


A resposta dele me chocou profundamente: “Marcelo, faço negócios na África há mais 30 anos e os africanos não gostam de fazer transações com empresas brasileiras, eles acham que vocês são muito badalhocos, que a bandalheira no Brasil é demais.”


Como assim!?!? Brasil é mais corrupto do que a África!!?


Pois é, essa é a nossa fama.


Não deveria me surpreender, nem com o português, nem com o cacau contaminado, mas não é fácil deixar preconceitos, positivos e negativos, de lado na nossa idade.


Eu li no The Economist, há cerca de 40 anos, que os latino-americanos acham que são ocidentais. Mas não são…


Fiquei profundamente ofendido na época.


Hoje eu entendo!

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